Corretoras de criptomoedas que estão encerrando operações no Brasil em 2026: o que aconteceu e o que fazer
Em pouco mais de três meses, cinco corretoras conhecidas do investidor brasileiro anunciaram que deixam de atender o varejo: Bitnuvem, NovaDAX, Digitra.com, Bitso e Coinext. Nenhuma delas quebrou. Não houve fraude, invasão ou desaparecimento de fundos. Todas divulgaram cronogramas de saque e estão devolvendo os ativos aos clientes.
O que explica a sequência é outra coisa: o novo marco regulatório do Banco Central para o setor entrou em vigor em fevereiro de 2026 e deu prazo até 30 de outubro para que as empresas peçam autorização. Cada corretora precisou decidir se faria o investimento necessário para se enquadrar. Algumas concluíram que não.
Este artigo reúne o que aconteceu em cada caso, o que a regulação exige, como saber se a sua corretora vai continuar e o que fazer se ela anunciou o encerramento.
Linha do tempo: quem anunciou o quê
| Corretora | Anúncio | O que foi decidido | Prazo para o cliente |
|---|---|---|---|
| Bitnuvem | Maio de 2026 (desativação gradual desde outubro de 2025) | Encerramento total das atividades | Plataforma acessível para saques até o fim de 2026 |
| NovaDAX | 8 de junho de 2026 | Encerramento total no Brasil | Saques em cripto encerrados em 30/08; desde 1º/09 os saldos em cripto são convertidos para reais; saque em reais por prazo adicional |
| Digitra.com | Agosto de 2026 | Fim da negociação e custódia para varejo; parceria voluntária com a Foxbit | Saques até 21/09/2026; histórico disponível até 30/10 |
| Bitso | 1º de setembro de 2026 | Fim do atendimento a pessoa física no Brasil; clientes direcionados ao Mercado Bitcoin; Bitso segue no institucional | Transição nos próximos dias; acompanhe os comunicados oficiais |
| Coinext | 3 de setembro de 2026 | Fim da exchange de varejo; a gestora Coinext Asset continua | Negociação até 15/10; saque em cripto até 20/10; conversão automática para reais a partir de 26/10 (confira o cronograma oficial) |
Os motivos declarados variam. A Coinext foi a mais direta: a nova realidade regulatória passou a exigir uma estrutura de capital e operação diferente daquela sobre a qual a empresa foi construída, e nenhuma alternativa de continuidade se mostrou viável no tempo disponível. A Digitra citou nominalmente as Resoluções BCB 519, 520 e 521 e as exigências de capital, tecnologia e governança. A Bitnuvem falou em regulação desfavorável às fintechs e na concorrência de grandes players internacionais. A NovaDAX atribuiu a saída a uma decisão estratégica do grupo controlador. Bitso e Mercado Bitcoin afirmaram que a parceria não está diretamente ligada às novas regras.
O que a regulação do Banco Central passou a exigir
O marco legal das criptomoedas é a Lei 14.478/2022. Em 2023, o Banco Central foi designado como regulador do setor. Em 10 de novembro de 2025, o BC publicou as Resoluções 519, 520 e 521, que entraram em vigor em 2 de fevereiro de 2026 e criaram a figura da Prestadora de Serviços de Ativos Virtuais (PSAV). Em resumo, as normas estabelecem:
- Autorização prévia para intermediar, custodiar ou negociar criptoativos para terceiros, em três modalidades: intermediária, custodiante e corretora (que acumula as duas anteriores).
- Capital mínimo entre R$ 10,8 milhões e R$ 37,2 milhões, conforme a atividade — valor bem acima do que havia sido proposto na consulta pública, que falava em R$ 1 milhão a R$ 3 milhões.
- Segregação patrimonial obrigatória entre os ativos dos clientes e o patrimônio da empresa.
- Estrutura de governança, gestão de riscos e controles de prevenção à lavagem de dinheiro equivalentes aos exigidos de outras instituições supervisionadas pelo BC.
- Prazo de 30 de outubro de 2026 para que as empresas já em operação protocolem o pedido de autorização. Plataformas estrangeiras tiveram o mesmo intervalo para transferir a operação a uma entidade sediada e autorizada no Brasil ou encerrar as atividades no país.
Na prática, a partir do prazo, instituições autorizadas pelo BC — bancos e instituições de pagamento, por exemplo — deixam de poder manter relacionamento com prestadoras que não tenham licença nem processo de autorização em andamento. Sem acesso a Pix e contas bancárias, operar no varejo se torna inviável. É esse o filtro que está redesenhando o mercado.
O que isso muda para quem investe
O efeito imediato é um mercado com menos corretoras nacionais. O efeito de médio prazo é um mercado com regras mais próximas das que valem para o restante do sistema financeiro: capital, segregação, governança e supervisão direta do Banco Central.
Para o investidor, três consequências práticas:
- Risco de contraparte passa a ser um critério explícito. Antes, escolhia-se corretora por taxa, ativos e interface. Agora, a primeira pergunta é se ela vai existir depois de outubro.
- Encerramento ordenado não é perda. Em todos os casos de 2026, houve cronograma e janela de saque. O risco real é perder os prazos — e, em alguns casos, ter os ativos convertidos automaticamente para reais em um momento que não foi escolhido por você.
- Histórico e documentação ganham importância. Extratos, ordens e comprovantes são a base da declaração de Imposto de Renda e podem ficar inacessíveis após o encerramento.
Como saber se a sua corretora vai continuar
Não espere um comunicado de encerramento para descobrir. Faça três verificações:
- Termos de uso e comunicados oficiais. Empresas que estão se adequando costumam declarar que estão em processo de autorização como PSAV junto ao Banco Central.
- Pergunte ao suporte, por escrito. Uma corretora que pretende continuar não terá dificuldade em responder.
- Observe o comportamento. Suspensão de novos cadastros, fim de produtos como staking e empréstimos, ou silêncio prolongado perto do prazo de 30 de outubro são sinais de atenção.
Se a sua corretora anunciou encerramento: o que fazer
- Leia o cronograma oficial e anote as datas. Cada corretora definiu prazos diferentes para depósitos, negociação, saques em cripto e saques em reais.
- Regularize o cadastro. Pendências de verificação são o principal motivo de saque travado. A recuperação de acesso pode levar dias.
- Exporte todo o histórico. Extratos, ordens executadas, rendimentos de staking e comprovantes de depósito e saque.
- Abra a conta de destino antes de começar a sacar. A verificação de identidade em outra plataforma leva tempo.
- Escolha o caminho. Transferir em cripto, quando ainda é possível, evita uma venda. Vender e sacar em reais é mais simples para posições pequenas ou muitos ativos. Em qualquer caso, faça um teste com valor baixo antes de mover o restante.
- Não deixe para os últimos dias. Filas de saque crescem perto do prazo e algumas corretoras avisaram que o processamento pode demorar mais que o habitual.
- Desconfie de qualquer contato não oficial. Encerramentos são o momento preferido de golpistas. Nenhuma corretora pede senha, código de autenticação ou frase de recuperação, e nenhuma envia endereço de carteira por mensagem para “migrar” seus ativos.
Sobre impostos: transferir criptoativos entre contas de mesma titularidade não é uma venda. Já a venda — inclusive a conversão automática para reais feita pela corretora ao fim do prazo — é uma alienação e entra na apuração de ganho de capital. Guarde os comprovantes e, em caso de dúvida, consulte um contador.
Guias por corretora
Preparamos um guia específico para cada situação, com prazos, passo a passo de migração e perguntas frequentes:
- Alternativas à Bitnuvem
- Alternativas à NovaDAX
- Alternativas à Digitra.com
- Não quer migrar da Bitso para o MB? Veja alternativas
- Alternativas à Coinext
E a Brasil Bitcoin?
A Brasil Bitcoin opera desde fevereiro de 2018 e está em processo de autorização junto ao Banco Central para seguir operando em conformidade com o novo marco regulatório. A plataforma funciona normalmente, com mais de 700 mil clientes e R$ 25 bilhões negociados desde a fundação. Se você está avaliando para onde levar seus ativos, a tabela de taxas e a lista de mais de 150 criptoativos estão públicas em brasilbitcoin.com.br.
Perguntas frequentes
Minhas criptomoedas estão em risco se a corretora encerrar? Nos encerramentos anunciados em 2026, as empresas divulgaram cronogramas e estão devolvendo os ativos. O risco está em perder os prazos: dependendo do caso, o saldo em cripto é convertido automaticamente para reais, e o acesso à plataforma termina em data definida.
O que é PSAV? Prestadora de Serviços de Ativos Virtuais — a categoria criada pelo Banco Central para empresas que intermediam, custodiam ou negociam criptoativos para terceiros no Brasil. Desde fevereiro de 2026, atuar nesse mercado exige autorização do BC.
O que acontece depois de 30 de outubro de 2026? Empresas que não tiverem protocolado o pedido de autorização perdem a possibilidade de manter relacionamento com instituições autorizadas pelo BC, o que na prática inviabiliza depósitos e saques em reais. As que protocolaram seguem operando enquanto o pedido é analisado.
Corretoras internacionais também precisam se adequar? Sim. As plataformas estrangeiras que atendem brasileiros tiveram o mesmo prazo para migrar a operação a uma entidade sediada e autorizada no Brasil ou encerrar o atendimento no país.
Vale a pena tirar tudo das corretoras e guardar em carteira própria? É uma opção legítima para quem domina a custódia das próprias chaves. Para a maioria dos investidores, uma corretora em processo de autorização no BC, com segregação patrimonial e histórico no mercado, continua sendo o caminho mais prático — desde que a escolha seja feita com os critérios acima em mente.
