Recorde na balança, escalada no dólar digital
Em 2025, o Brasil bateu recorde de comércio exterior: US$ 629,1 bilhões somando exportações e importações, o maior valor da série histórica. No mesmo período, outro número cresceu em ritmo bem mais acelerado: o volume de stablecoins de dólar, como o USDT, negociado e enviado ao exterior por brasileiros.
Uma coisa não causou a outra. O recorde da balança veio de petróleo, soja, minério e da demanda da China. Mas os dois movimentos se encontram em um ponto: quem compra e vende para fora precisa de dólar rápido, previsível e barato, e o dólar digital passou a cumprir esse papel para uma parte crescente das empresas.
Neste artigo, você vê os números lado a lado, entende por que importadores, exportadores e corretoras de câmbio começaram a usar stablecoins e o que muda com as regras do Banco Central em 2026.
Os números lado a lado
Enquanto o comércio exterior cresceu de forma gradual, as compras de criptoativos no exterior por residentes, hoje dominadas por stablecoins, se multiplicaram mais de 100 vezes entre 2019 e 2025, segundo o balanço de pagamentos do Banco Central.
| Indicador | Número | Fonte |
|---|---|---|
| Corrente de comércio do Brasil em 2025 | US$ 629,1 bilhões (recorde) | MDIC / ApexBrasil |
| Exportações em 2025 | US$ 348,7 bilhões (recorde) | MDIC / ApexBrasil |
| Importações em 2025 | US$ 280,4 bilhões (recorde) | MDIC / ApexBrasil |
| Compras de criptoativos no exterior por residentes, 2019 | US$ 130 milhões | Banco Central |
| Compras de criptoativos no exterior por residentes, 2025 | US$ 16,9 bilhões | Banco Central |
| Compras de stablecoins no exterior, 1º semestre de 2026 | US$ 14,7 bilhões (alta de 130% sobre 2025) | Banco Central |
| Participação das stablecoins no volume de cripto declarado à Receita em 2025 | cerca de 80% | Receita Federal |
| Participação do USDT no volume de stablecoins (ago/2019 a dez/2025) | 88,7% | Receita Federal |
Dois cuidados na leitura. Primeiro, a estatística do Banco Central capta principalmente empresas que compram esses ativos lá fora para distribuir no Brasil, e não o uso final de cada importador. Segundo, os volumes de stablecoin incluem investimento, remessa pessoal e pagamento de serviços, não só comércio de bens.
O que os dados mostram com clareza é a mudança de perfil: em 2019, as stablecoins eram 3,5% do volume de cripto declarado à Receita. Hoje são a maior parte dele, o que indica uso como meio de transferência e reserva em dólar, e não como aposta especulativa.
Por que quem faz comércio exterior olhou para o dólar digital
A adoção nasceu de uma dor concreta do câmbio tradicional. Pagar um fornecedor na China ou receber de um cliente nos Estados Unidos passa, em geral, por uma cadeia de bancos correspondentes, com custo em cada etapa e prazo medido em dias.
Para uma empresa que opera com margem apertada, isso pesa em três frentes:
- Prazo: a mercadoria só embarca quando o pagamento chega, e cada dia de atraso trava produção, estoque e frete.
- Custo: spread do câmbio, tarifas de remessa e taxas de intermediários somam várias camadas sobre o mesmo valor.
- Previsibilidade: a cotação pode mudar entre a negociação e a liquidação, o que dificulta precificar o pedido.
A stablecoin de dólar responde a essas três dores. O USDT acompanha o dólar americano, a moeda que referencia boa parte do comércio internacional, circula 24 horas por dia, inclusive fim de semana, e é liquidado em minutos. Para quem precisa fechar um pedido na sexta à noite com um fornecedor do outro lado do mundo, essa diferença é operacional, não teórica.
O reflexo aparece nos dados: segundo o Banco Central, as stablecoins chegaram a 98% de todo o volume de criptoativos enviado ao exterior por brasileiros. Na prática, quando o cripto sai do país, ele sai em dólar digital.
Onde a adoção já aparece
Não existe um dado público que mostre o uso de stablecoins por setor da economia. A Receita e o Banco Central divulgam números agregados. Mas reportagens e movimentos de mercado mostram em quais elos do comércio exterior o dólar digital já entrou.
- Corretoras de câmbio: as principais corretoras de câmbio que operam no Brasil já usam stablecoins na gestão de tesouraria ou têm projetos em estágio avançado, segundo apuração da InfoMoney.
- Agronegócio: bancos de câmbio e fintechs passaram a oferecer pagamentos internacionais com stablecoin para empresas do agro e produtores rurais. Entidades dos setores de importação, portuário e despacho aduaneiro também têm buscado entender o modelo.
- Importadores: empresas que compram máquinas, eletrônicos, insumos e químicos no exterior, com destaque para quem paga fornecedores na Ásia, usam o dólar digital para encurtar o prazo de liquidação.
- Trade finance: fintechs brasileiras captaram recursos em 2026 para usar stablecoins no financiamento de importadores e em infraestrutura de pagamentos globais, com apoio de fundos internacionais.
- Serviços e tecnologia: empresas que pagam computação em nuvem no exterior e profissionais que recebem de clientes internacionais completam o perfil.
O ponto em comum é o fluxo recorrente com o exterior. Quanto mais frequente e mais urgente o pagamento, maior o ganho de liquidar em minutos com cotação definida. Se você quer ver como isso funciona na prática, o guia de comércio exterior com USDT mostra o passo a passo de cada ponta da operação.
O que os números não dizem, e o que mudou em 2026
É tentador ler os dois recordes juntos e concluir que a stablecoin puxou o comércio exterior. Os dados não sustentam essa conclusão. Mesmo somando tudo o que residentes compraram em criptoativos no exterior em 2025, o valor equivale a menos de 3% da corrente de comércio do ano, e boa parte desse volume nem é comércio de bens.
A leitura correta é outra: o comércio exterior seguiu seus próprios motores, e o dólar digital se consolidou como uma ferramenta de eficiência para quem participa dele. É uma mudança de infraestrutura de pagamento, não de tamanho da balança.
Essa mudança também chamou a atenção do regulador. Desde fevereiro de 2026, pagamentos e transferências internacionais feitos com ativos virtuais passaram a ser tratados como operações de câmbio pelo Banco Central. Em abril, a Resolução BCB nº 561 determinou que a liquidação entre as instituições de pagamento internacional (eFX) e suas contrapartes no exterior ocorra por operação de câmbio, e passou a permitir que exportadoras de bens mantenham conta em moeda estrangeira no Brasil para receitas de exportação.
Na prática, a stablecoin continua no jogo, mas com mais regra, mais rastreabilidade e mais exigência sobre quem presta o serviço. Para a empresa, isso reforça três cuidados:
- Operar com prestadores que estejam dentro do processo regulatório do Banco Central.
- Manter toda a documentação da operação de comércio exterior, como contratos, faturas e registros aduaneiros, independentemente do meio de pagamento.
- Contar com a contabilidade e o jurídico para enquadrar a operação nas regras de câmbio e tributação vigentes.
E a Brasil Bitcoin?
A Brasil Bitcoin é uma das corretoras líderes em volume na América Latina, com mais de 650 mil clientes e R$ 28 bilhões negociados, e está em processo de autorização junto ao Banco Central. Para empresas que fazem comércio exterior, a mesa OTC da Brasil Bitcoin oferece compra e venda de USDT em volume, com cotação travada e atendimento dedicado.
Perguntas frequentes
O que é uma stablecoin de dólar?
É um criptoativo que acompanha o valor do dólar americano, mantendo paridade próxima de 1 para 1. O USDT, da Tether, é a mais usada no Brasil e responde por quase 9 em cada 10 reais negociados em stablecoins, segundo a Receita Federal.
A stablecoin impulsionou o recorde do comércio exterior brasileiro?
Não. O recorde de 2025 veio principalmente de petróleo, soja, minério e da demanda da China. O que cresceu em paralelo foi o uso do dólar digital como ferramenta de pagamento e tesouraria por empresas que operam com o exterior.
Por que empresas de comércio exterior usam USDT?
Porque ele circula 24 horas por dia, é liquidado em minutos e acompanha o dólar, moeda de referência do comércio internacional. Isso reduz prazo, intermediários e incerteza de cotação em pagamentos e recebimentos.
Usar stablecoin no comércio exterior é permitido?
Sim, dentro das regras. Desde 2026, o Banco Central trata pagamentos internacionais com ativos virtuais como operações de câmbio, com exigências de reporte e rastreabilidade. As obrigações aduaneiras, contábeis e tributárias continuam valendo.
Existe dado oficial de adoção de stablecoin por setor?
Ainda não. Receita Federal e Banco Central publicam números agregados de volume. A adoção por setor aparece em reportagens e em movimentos de mercado, como corretoras de câmbio, agro e importadores.